domingo, 27 de março de 2011

CONTO

DECISÃO


Naquela manhã, ela decidira, não iria trabalhar. A noite tinha sido agitada, virou-se de um lado para o outro e não conseguira dormir. Os pensamentos vinham aos turbilhões: “Será que estou fazendo a coisa certa?”, “E se ele logo arrumar outra e for feliz?”, “Me sentirei uma fracassada”.
Ela era extremamente responsável, dificilmente faltava ao trabalho. Muitas vezes fora trabalhar até doente. Mas, naquela manhã ela estava se sentindo muito angustiada, sentia que precisava sair, não queria ver ninguém, nenhum conhecido. Depois de relutar com os pensamentos “Vou trabalhar, isso vai passar.”; “Não, hoje não quero ir.”; “O que será que está acontecendo comigo, meu Deus!”.
Tomou seu banho, perfumou-se, maquiou-se, arrumou os cabelos, tomou o café como de costume e saiu. Saiu sem rumo, pegou uma via expressa que a levaria à praia. Ligou o rádio, ficou mudando de estação até que numa delas tocava uma música da qual ela gostava.
Os pensamentos negativos ameaçam voltar para tirar-lhe aquela paz momentânea e então ela começou a cantar, aumentou o som e se perdeu por um momento, naquele êxtase.
Por volta de 10 horas chegou à praia, estacionou o carro, tirou os sapatos de salto alto e começou a caminhar pela orla deixando-se levar pelo barulho das ondas e pelo cheiro do mar. Fazia muito tempo que não desfrutava daquela sensação tão agradável. Fazia também muito tempo que não se dava o prazer de estar só.
Depois de muito caminhar, parou, comprou uma água de coco e sentou-se em um banco, de frente para o mar. Pela primeira vez, depois de longos anos sentia-se viva. Lembrou-se dos ex-namorados, da adolescência, do namoro com o marido e de tudo que tinham vivido juntos ao longo daqueles anos. Tinha conhecido Rui ainda na escola. Quando ele passava em frente à sua casa de bicicleta, seu coração disparava. Na escola, a professora de Artes, sabendo do grande amor que Elisa sentia por Rui, fazia questão de mostrar-lhe as notas do amado.
O celular começou a tocar. Olhou, viu que era o marido, não atendeu, deixou o aparelho tocar, tocar, e enfim desligou-o.
Continuou com as lembranças, agora, da conquista que durara meses, das flores recebidas em ocasiões especiais e dos bilhetes apaixonados. “Por que será que ele tinha mudado tanto?” “Ou será que era ela que havia mudado?” Pensava ela.
Rui havia concluído sua pós-graduação, fazia academia, tinha amigos com os quais se reunia nas sextas-feiras para o “happy hour”. Ela, só concluíra o segundo grau, tornara-se uma grande dona de casa. Cuidava de tudo e de todos com grande dedicação. Os membros daquela família eram totalmente dependentes dela. Porém, sentia-se só, faltava-lhe algo, que não conseguia explicar.
Naquele dia, almoçou sozinha, comprou um sorvete o qual sempre tinha vontade de tomar, mas a dieta recomendada pela endocrinologista não permitia e sorriu feliz, leve e plena.
Voltou para o carro, subiu a serra ouvindo suas músicas preferidas. Já próximo de sua casa, foi ao mercado comprar a mistura e voltou para casa, decidida – não se separaria do marido. Porém, dali para frente tudo haveria de ser diferente, percebeu que precisava resgatar sua identidade e que a felicidade que buscava não poderia estar só no outro.
- Elisa, onde você estava? Liguei para você o dia todo, liguei inclusive para o seu trabalho e disseram-me que você não fora trabalhar. O que aconteceu? Indagou o marido.
- Mãe onde está aquela camisa social azul? Vou usá-la com o terno amanhã. Perguntou o filho.
- Mãe, você conseguiu marcar nossa depilação? Questionou a filha.
Elisa, quieta, mas feliz, colocava a mesa para o jantar e pensava “Hoje não vou lavar a louça do jantar, vou ler aquele livro que comprei e há tempos quero ler e não encontro tempo, sorriu novamente.” Afinal, a decisão estava tomada.


Gênero Textual: Conto
Tânia Regina Exposito Ferreira
08/11/2010

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